#148 – Ah, eu tô lendo um livro sobre botânica

Você entra em um conceituado restaurante francês, pede um prato cujo tamanho é cinco vezes menor e cujo preço é cinco vezes maior que o de uma refeição convencional. Quando a comida chega, você enfia tudo na boca de uma só vez e vira um copo de refrigerante em cima. O desfecho que eu escolheria para esta história é aquele em que o chef sai de dentro da cozinha e te acerta no meio da cara com um pau de macarrão.

Assim como ocorre na gastronomia, há muitas coisas na vida que merecem uma apreciação lenta e atenciosa, para que os sentidos consigam absorver a informação sem que haja muito desperdício.

“Ah, eu tô lendo um livro sobre botânica e não quero que ele acabe nunca”, disse várias vezes nos últimos meses a amigos mais próximos. A maioria deles perguntou imediatamente: “cara, o que pode ter de tão interessante um livro sobre PLANTAS?” A resposta está na pergunta; a inocência que levou o cérebro em questão a formulá-la justifica por si só a leitura do mesmo.

Uma grande amiga me emprestou o ótimo Botany of Desire, por Michael Pollan, que tive o prazer de classificar com cinco estrelinhas no Goodreads. É um livro pequeno, mas repleto de informações chocantes, apresentadas sob a forma de brilhantes metáforas. Sei que esta comparação com culinária francesa soa como uma desculpa por ter demorado o triplo do tempo que eu tinha prometido para terminar o livro – e provavelmente é, mas neste caso ela faz tanto sentido que convenceu até a mim.

Botany of Desire

LEIÃO

Uma das ferramentas mais úteis que possuímos é a capacidade de abstrair. É a nossa forma de reutilizar conceitos que outras pessoas gastaram tempo para criar, sem que seja necessário passar por todo o esforço novamente. É por isso que, quando compramos um pacote de bolachas no supermercado, nosso cérebro não vai desperdiçar tempo ligando todos os pontos desde o cultivo de cada uma das plantas que foram utilizadas como matéria prima para a fabricação daqueles deliciosos círculos crocantes de chocolate que envolvem outro delicioso círculo de pasta de baunilha até o momento em que tudo isso foi parar ali, dentro daquele pacotinho colorido, convenientemente empilhado em uma prateleira, para que possamos adquiri-lo em troca de pedaços coloridos e numerados de papel com fotos de gente supostamente importante que já morreu.

A comodidade de abstrair cadeias inteiras de produção nos faz ignorar uma quantidade enorme de fatos relevantes que têm o poder de fazer nossos queixos despencarem a 9,8 metros por segundo ao quadrado até o chão e não saírem de lá tão cedo. A leitura deste livro me fez despir, dissecar e examinar de perto várias destas abstrações.

O autor utiliza quatro plantas como representações de desejos humanos universais: a maçã, desejada pelo seu sabor, a tulipa, pela sua beleza, a maconha, por você-sabe-o-quê e a batata, pelo poder de controle. A ideia mais ou menos divertida de que a domesticação é algo feito tanto no sentido homem/planta (eba, vou plantar umas ervinha aqui pra ficar doidão rsrsrs) quanto no sentido planta/homem (eba, vou produzir umas toxina doida aqui praquele maconheiro loko ali querer me plantar rsrsrs) permeia todo o discurso do livro. Além disso, estão constantemente presentes duas ilustríssimas e excelentíssimas figuras da mitologia grega: Thor e Minotauro. Mentira. Elas são Apolo e Dionísio, militantes da ordem e do caos, defensores do controle humano sobre a natureza e da resposta da natureza contra o controle humano excessivo, tudo isso respectivamente.

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2 pensamentos sobre “#148 – Ah, eu tô lendo um livro sobre botânica

  1. Maior argumento a favor da leitura desse livro presente nesse post: ele é tão bom que validou uma ressuscitação do blog em questão após mais de um ano (o post anterior é de 08/08/11).

    Vou ler, cara. Já comecei, mas aí VIDA e tal.

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