#145 – Boat crossing

Existe um fenômeno que ocorre quando você, com o intuito de realizar uma determinada tarefa, dá início a uma série de ações que não estão diretamente relacionadas com a tarefa em si, até chegar a um ponto em que você se encontra trabalhando em algo que tem tanto a ver com a tarefa original quanto Neil Armstrong com um removedor de manchas. Esse fenômeno é algo tão comum que acabou ganhando um termo bonito só pra ele: yak shaving (ou “tosa de iaque”, na tradução para algo que com alguma boa vontade passe mais ou menos perto de ser considerado português).

- vem cá pra eu te dar uma balinha

Ontem eu me vi em uma situação que eu não pude deixar de relacionar com o iaque careca. Eu uso regularmente no notebook um determinado programa para facilitar o meu trabalho, mas esse aglomerado de merda binária estava com um problema bem irritante desde o início do ano passado. Só que em vez de resolver o problema diretamente na raiz, eu fui contornando os seus efeitos por pura preguiça durante todo esse tempo, mesmo sabendo que isso aumentava meu trabalho de uma forma significativa. Foi então que, em um súbito acesso de emputecimento, eu resolvi consertar o problema. É claro que a resolução do tal problema acabou demorando umas duas semanas. Pena que isso é mentira, porque ela demorou, chutando por alto, dois minutos. DOIS MINUTOS DA SILVA. Se eu somar todo o trabalho e multiplicar por toda a raiva que essa picuinha infernal me causou durante todos esses meses, o resultado será o número máximo de rotações por segundo do ventilador onde está presa a outra ponta da corda que está amarrada em volta do meu pescoço neste exato momento.

A maior frustração disso tudo foi concluir que a ocorrência deste tipo de evento na minha vida é muito maior do que a quantidade de vezes que eu perco diariamente as chaves de casa. Um dos exemplos mais recentes da minha propensão a criar este tipo de situação foram as duas semanas nas quais, em vez de gastar meia hora consertando meu chuveiro, eu preferi alugar um quarto de hotel exclusivamente para tomar banho, onde esse quarto de hotel na verdade era o apartamento do meu vizinho que gentilmente concedeu seus aposentos – ou seja, não tomou conhecimento do fato – para que eu pudesse ficar cheiroso e com o cabelo perfumado enquanto ia recuperando aos poucos meus sensos de VIRA HOMEM E CONSERTA LOGO ESSA MERDA SEU VERME.

Visto que, como eu disse antes, todo fenômeno que acontece com uma certa frequência merece um nome, decidi que este também seria devidamente batizado. Sob óbvia influência da história tocante do yak shaving, acabei chegando ao termo “boat crossing”. Isto porque a melhor analogia que eu encontrei até agora foi a história de um senhor que precisa passar para o outro lado de um rio todos os dias e que, em vez de consertar a ponte quebrada usando um punhado de tábuas, prefere usar um barco para fazer a travessia.

Perdi algum tempo pensando a respeito do que poderia me levar a tomar este tipo de atitude e encontrei três motivos principais. O primeiro envolve a simples ignorância da forma correta de se realizar uma determinada tarefa. O segundo é uma tendência natural à procrastinação, que pode ser domada com alguns métodos interessantes. O terceiro motivo é a crença de que não será necessário resolver uma tarefa um número de vezes que justifique a busca de uma solução definitiva, uma condição também conhecida em alguns círculos da sociedade como “preguiça”.

Mas como escapar do boat crossing? O primeiro passo para a resolução de qualquer problema é descobrir que ele existe. Isso envolve repensar cada uma das suas ações, especialmente as que você repete várias vezes por dia. A partir daí é só resolver o problema da forma que você julgar mais correta, mesmo que isto envolva utilizar a madeira do próprio barco para finalmente consertar a maldita ponte.

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10 pensamentos sobre “#145 – Boat crossing

    • você diz quando o windows fica torrando seu saco pra você deixar ele reiniciar e aplicar as atualizações, né? eu também ficava um tempão clicando no botão pra adiar o reinício, até aprender um esquema em que você vai lá e desliga o próprio programa que fica enchendo o seu saco, haha.

      WORKS LIKE A CHARM

    • exatamente, como voce demorou muito pra trocar a sua tela foi apodrecendo mais e mais e seus olhos nao conseguiram enxergar pois a propria rachadura no vidro da tela os tampou

  1. eu ia falar que vose era muito entendido mas…kkkkkkk me desgrace me odeie

    olha onda olha onda~~ tipo eu procrastinando pra levantar da cama todo dia que fico apertando o sleep e ZzZZz

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