#146 – Transtorno dissociativo de identidade

Uma coisa que me incomoda profundamente é ver alguém jogando um jogo de videogame que oferece a preciosíssima oportunidade de ser mau pra caralho e, mesmo assim, transformar o personagem do jogo numa espécie de Bono Vox de Calcutá. Como bons cidadãos respeitadores da lei e da ordem, nós já somos obrigados diariamente a viver como cordeirinhos, mesmo que o motivo disso seja o medo de voltar com o nariz sangrando pra casa ou simplesmente o bom senso de alguém que prefere não correr o risco de arrumar um emprego de boneca inflável em algum presídio por aí.

Hoje em dia, com muito menos tempo pra jogar fora do que tinha antes, eu não perco uma chance sequer de tomar as decisões mais horripilantemente sem coração possíveis quando algum jogo faz a besteira de me oferecer essa possibilidade. Mas eu nem sempre fui assim.

O começo de toda essa minha revolta foi numa tarde em que eu estava jogando algum jogo aleatório de zumbis. O meu personagem empunhava uma belíssima pistola automática enquanto andava feliz e contente por um vilarejo no meio do nada, cuja aparência, digamos, não evocava muita hospitalidade por parte dos moradores. Para a minha surpresa, um cachorrinho, provavelmente com quociente de inteligência artificial muito abaixo da média, resolveu passar correndo do meu lado. Foi a primeira coisa viva que eu via no jogo até aquele momento. Neste momento o sociopata que se apodera do meu corpo quando eu estou segurando o controle do videogame desejou mais do que qualquer outra coisa no mundo descarregar toda a munição disponível no cachorro só pra ver o que ia acontecer.

TA RINDO DO QUE MUTLEY SEU CACHORRO IMPRESTAVEL

Veja bem, não há muitas possibilidades de coisas moralmente erradas para se fazer em um jogo infestado de pedaços ambulantes de carne em putrefação, portanto acredito que seja perfeitamente possível entender meu ímpeto assassino em resposta a um evento deste tipo. O problema é que, neste exato momento, uma amiga minha estava sentada no sofá, assistindo horrorizada a toda aquela carnificina que eu e meu arsenal bélico estávamos criando com o único objetivo de ensinar aquela horda de zumbis que eles deveriam estar estirados no chão em vez de ficar tentando comer pedaços da minha perna. Tudo em prol da educação, claro.

Reconheço que hesitei um pouco antes de sentar o dedo na porra do gatilho enquanto mirava na direção do vira-lata, visto que eu não queria aterrorizar ainda mais a minha amiga com um ato tão sórdido de violência apenas para saciar minha sede de sangue virtual inocente. O problema é que essa garota tinha uma postura com relação ao meio ambiente e aos animais que apesar de respeitar completamente, eu acho um tanto quanto retardada. Basta imaginar alguém que prefere ir e voltar cinco vezes do supermercado com as compras na mão em vez de usar uma maldita sacola de plástico. Dito isto, acredito que poucas pessoas irão discordar de que seria um absurdo desperdiçar aquela situação singular com a qual o universo me presenteou.

Quando a garota percebeu o que eu estava prestes a fazer, ela me lançou um olhar pelo menos duas vezes mais cruel do que as minhas intenções para com o bichinho. Poucos segundos depois, eu estava descarregando com a satisfação mais satânica possível toda a minha munição no cachorro, espirrando sangue canino não apenas na tela mas também no senso de justiça da senhorita que, antes sentada do outro lado da sala, agora estava de pé na minha frente me dando um sermão enfurecido sobre a minha má índole e o significado das minhas atitudes. Tentei argumentar que nunca tinha matado sequer uma barata no mundo real, mas foi em vão. Como um bom portador de uma síndrome crônica de adolescente, protestei assassinando friamente tudo que se movia no jogo, vivo ou morto. E isso continuou mesmo depois que ela já tinha ido embora. E meu protesto continua até hoje, não apenas contra a fúria irracional da minha amiga, mas também contra toda a demagogia envolvendo violência em jogos eletrônicos que eu sou obrigado a engolir de tempos em tempos.

#145 – Boat crossing

Existe um fenômeno que ocorre quando você, com o intuito de realizar uma determinada tarefa, dá início a uma série de ações que não estão diretamente relacionadas com a tarefa em si, até chegar a um ponto em que você se encontra trabalhando em algo que tem tanto a ver com a tarefa original quanto Neil Armstrong com um removedor de manchas. Esse fenômeno é algo tão comum que acabou ganhando um termo bonito só pra ele: yak shaving (ou “tosa de iaque”, na tradução para algo que com alguma boa vontade passe mais ou menos perto de ser considerado português).

- vem cá pra eu te dar uma balinha

Ontem eu me vi em uma situação que eu não pude deixar de relacionar com o iaque careca. Eu uso regularmente no notebook um determinado programa para facilitar o meu trabalho, mas esse aglomerado de merda binária estava com um problema bem irritante desde o início do ano passado. Só que em vez de resolver o problema diretamente na raiz, eu fui contornando os seus efeitos por pura preguiça durante todo esse tempo, mesmo sabendo que isso aumentava meu trabalho de uma forma significativa. Foi então que, em um súbito acesso de emputecimento, eu resolvi consertar o problema. É claro que a resolução do tal problema acabou demorando umas duas semanas. Pena que isso é mentira, porque ela demorou, chutando por alto, dois minutos. DOIS MINUTOS DA SILVA. Se eu somar todo o trabalho e multiplicar por toda a raiva que essa picuinha infernal me causou durante todos esses meses, o resultado será o número máximo de rotações por segundo do ventilador onde está presa a outra ponta da corda que está amarrada em volta do meu pescoço neste exato momento.

A maior frustração disso tudo foi concluir que a ocorrência deste tipo de evento na minha vida é muito maior do que a quantidade de vezes que eu perco diariamente as chaves de casa. Um dos exemplos mais recentes da minha propensão a criar este tipo de situação foram as duas semanas nas quais, em vez de gastar meia hora consertando meu chuveiro, eu preferi alugar um quarto de hotel exclusivamente para tomar banho, onde esse quarto de hotel na verdade era o apartamento do meu vizinho que gentilmente concedeu seus aposentos – ou seja, não tomou conhecimento do fato – para que eu pudesse ficar cheiroso e com o cabelo perfumado enquanto ia recuperando aos poucos meus sensos de VIRA HOMEM E CONSERTA LOGO ESSA MERDA SEU VERME.

Visto que, como eu disse antes, todo fenômeno que acontece com uma certa frequência merece um nome, decidi que este também seria devidamente batizado. Sob óbvia influência da história tocante do yak shaving, acabei chegando ao termo “boat crossing”. Isto porque a melhor analogia que eu encontrei até agora foi a história de um senhor que precisa passar para o outro lado de um rio todos os dias e que, em vez de consertar a ponte quebrada usando um punhado de tábuas, prefere usar um barco para fazer a travessia.

Perdi algum tempo pensando a respeito do que poderia me levar a tomar este tipo de atitude e encontrei três motivos principais. O primeiro envolve a simples ignorância da forma correta de se realizar uma determinada tarefa. O segundo é uma tendência natural à procrastinação, que pode ser domada com alguns métodos interessantes. O terceiro motivo é a crença de que não será necessário resolver uma tarefa um número de vezes que justifique a busca de uma solução definitiva, uma condição também conhecida em alguns círculos da sociedade como “preguiça”.

Mas como escapar do boat crossing? O primeiro passo para a resolução de qualquer problema é descobrir que ele existe. Isso envolve repensar cada uma das suas ações, especialmente as que você repete várias vezes por dia. A partir daí é só resolver o problema da forma que você julgar mais correta, mesmo que isto envolva utilizar a madeira do próprio barco para finalmente consertar a maldita ponte.