#141 Carboidratos

A descendência italiana me trouxe, além dos genes da fala a 120 decibéis e da gesticulação olímpica, uma paixão doentia e obscena por massas. Não é difícil imaginar o estrago causado na minha saúde pela minha mudança para a cidade com o segundo maior número de pizzarias do mundo. Juro que se um dia eu resolver me matar, meu corpo vai ser encontrado debaixo de uma pilha de caixas vazias de pizza (fica a dica).

O fato é que alimentação sempre foi um dos problemas da minha vida. Eu sou possivelmente a terceira ou quarta pessoa mais enjoada que eu conheço. Quando eu era pequeno e ia a um churrasco, eu enchia o prato só com arroz e ficava aguentando um rebanho de três dúzias de crianças com a cara 80% coberta por gordura de frango apontando pra mim e me esculachando sem uma gota de piedade. Eu queria mais é que aquelas dóceis crianças MORRESSEM engasgadas com o pedaço de osso que elas estavam chupando. Eu não ficaria muito admirado em descobrir que aquele grupo específico de crianças serviu de inspiração para algum filme tosco de terror por aí.

Depois de muitos anos e muita insistência da minha família (principalmente dos meus cunhados com síndrome de Bozo, que me chamavam de “arroz”), acabei adicionando alguns itens ao meu cardápio de alimentos aceitáveis. Entretanto, já que ninguém deixa de ser enjoado do dia para a noite, é óbvio que estes novos itens só são colocados no meu prato se estiverem de acordo com uma série de frescuras exigências. Um filé de frango grelhado, por exemplo, tem que estar muito bem passado. Inclusive, eu faço questão de dar instruções adicionais aos garçons a respeito do ponto do filé, sob o correr o risco de comer comida com, digamos, temperos “especiais”. Infelizmente, o resultado nunca é o esperado:

E além de tudo, temperado com cuspe.

E, obviamente, temperado com cuspe.

Depois de morar algum tempo em São Paulo e de ouvir uma série de boatos preocupantes, passei a acreditar na existência de um espírito coletivo de sadismo nas pessoas que preparam a comida em alguns restaurantes que eu frequento. Há, por exemplo, uma lanchonete em especial cujo nome será omitido (Burdog) que possui chapeiros tão de mal com a vida que fazem questão de colocar uma quantidade absurda de recheio nos sanduíches, transformando-os em algo que você simplesmente não consegue comer. Acho que quando o sujeito lê o papelzinho com o pedido, passa algo assim pela sua cabeça: “ah, então é cheddar o que você quer? pois cheddar você terá.” O resultado disso é que fica meio difícil encontrar o lanche no meio de todo aquele queijo.

Outra coisa que eu acho meio irritante na alimentação paulistana é a subcultura criada pelos restaurantes. Juro que já considerei seriamente a possibilidade de existir algum decreto municipal obrigando os restaurantes a servir feijoada na quarta-feira. Ou a colocar fritas como acompanhamento de absolutamente qualquer coisa. Ainda vai chegar o dia em que ao comprar analgésicos em uma farmácia, vão te perguntar se você aceita fritas na promoção.

Uma das piores partes de ser obrigado a almoçar todo dia em um restaurante é justamente escolher o restaurante, principalmente nessas regiões em que se você não prestar atenção, desvia dos garfos jogados na calçada pra tropeçar em garçons. Note que a complexidade da escolha aumenta exponencialmente em relação ao número de envolvidos. Isso me motivou a criar um guia básico de escolha de restaurantes por exclusão:

1. Apelidos
Restaurantes apelidados pelos seus colegas de trabalho de “seboso”, “macumba” ou “kafka” devem ser evitados a qualquer custo.

2. Promoções
Quanto maior o número de promoções e ofertas que um restaurante oferece, maior a chance de haver algo muito errado com a comida. Uma vez fui a um restaurante em que não se paga a refeição se a) você acertar o peso do prato; b) o peso da sua comida for correspondente a um conjunto de números cabalísticos ou c) você preencher completamente um cartão de fidelidade. Posteriormente descobri que o apelido do restaurante era “roleta russa” (vide item anterior).

3. Botecos
Não dá pra esperar que o cozinheiro de um lugar cujas especialidade é servir cerveja tenha dotes culinários muito além do necessário para cortar salame cru.

4. Placas “PF por 4,99”
Sem comentários.

5. Fantasias
Você está procurando um lugar para se alimentar, não para dar uma festa. Restaurantes que obrigam seus funcionários a colocar um chapéu com uma hélice em cima, usar as roupas do Papai Noel ou se vestir como monstros no Halloween (sim, eu vi isso com meus próprios olhos) não merecem muita confiança, por dois motivos. O primeiro é que funcionários expostos ao ridículo geralmente não trabalham muito felizes. O segundo é que fantasias geram suor.

6. Cardápios impronunciáveis
É fortemente recomendado que se evite comer em estabelecimentos cujo menu contenha nomes que você não consegue ler. Uma vez fui a um restaurante em que um dos poucos pratos com nome legível era ragu de pato. Por coincidência ou não, esse era o item mais convencional de todo o cardápio. Fui obrigado a abandonar o local.

7. Nenhum tipo de massa
A falta de massas em um restaurante é um gravíssimo indicador de falta de respeito com os clientes e deve não apenas ser evitado, mas completamente boicotado e, quando possível, o proprietário deve ser ameaçado com um rolo de macarrão.

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12 pensamentos sobre “#141 Carboidratos

  1. huahuahuahuahu ou melhor sopslsposslslososkopsposposlslsislisl

    Muito bom!! huahuahua Ainda mais conhecendo a peça…huahuahuahu

    abracao!

  2. Sou mais um PF com fritas, salada random e bife Clark Kent do que muito macarrão por aí… Ainda mais se o PF em questão estiver acompanhado de uma boa tubaína.

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